Mensagem do Embaixador Enio Cordeiro, Cônsul-Geral em Nova York na recepção da Data Nacional

Mensagem do Embaixador Enio Cordeiro, Cônsul-Geral em Nova York na recepção da Data Nacional

Chamber Articles Category: Exclusive Articles Post Date: 09/11/18 Source: Consulate General of Brazil in New York By: Ambassador Enio Cordeiro, Consul General of Brazil in New York
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(7.9.2018)

Este 7 de setembro reveste-se de um significado especial: no próximo mês elegeremos o Governo que deverá conduzir o Brasil até a celebração do bicentenário de nossa independência em 2022.

Vivemos um momento transformador de nossa cultura política e institucional e as eleições de outubro convidam necessariamente a uma reflexão sobre o país que somos e o país que almejamos ser.

O Brasil passou nos últimos anos por um turbulento processo de superação de dificuldades políticas e econômicas.

A boa notícia é que o país que emerge dessa crise é um país melhor: um país mais confiante em si mesmo, na fortaleza de suas instituições e nas virtudes do estado de direito e da democracia.

O contraponto é que momentos de instabilidade e de confrontação política como o que estamos vivendo podem alimentar aberrações de comportamento como o atentado que ocorreu há poucas horas contra um dos candidatos à Presidência.

As eleições que se avizinham não serão a panacéia para todos os males, mas representam a oportunidade de definir um ponto de inflexão, a partir do qual certamente construiremos, com maior dose de autoestima, o país mais justo que todos desejamos.

Nos últimos anos, e ainda mesmo nos últimos dias, o Brasil viu-se profundamente afetado pela revelação de episódios de corrupção que expõem as nefastas consequências de uma relação incestuosa entre obra pública e financiamento ilícito de campanhas. Maus hábitos que se acumularam, maculando a nobreza da função pública e da atividade política, convertida muitas vezes num proveitoso negócio familiar. Comprometeu-se por esse caminho e de maneira quase irreparável a respeitabilidade da representação política e a confiança do cidadão nos governantes.

Os brasileiros no entanto decidiram que estas eleições precisam ser diferentes. E elas serão efetivamente diferentes, a despeito de episódios lamentáveis como o que hoje ocorreu.

Os últimos anos foram também difíceis no plano econômico. Não porque o país seja econômicamente inviável. Longe disso e muito pelo contrário: o Brasil está e sempre estará entre as principais economias e os principais mercados do mundo.

Mas os desacertos políticos também condicionam as possibilidades econômicas de qualquer país. A crise brasileira é uma crise essencialmente política. E são políticas as reformas que precisamos empreender.

Exatamente por isso, é preciso restabelecer a credibilidade da liderança política no país e a capacidade sistêmica de construir consensos que respeitem o pluralismo e a diversidade de interesses para alcançar o bem comum e a justiça social.

Essa tarefa requer a participação de todos e não permite exclusões sectárias.

Possivelmente nenhum partido político esteve imune nos últimos anos aos vícios que desejamos superar. Por isso mesmo, nenhum deles é dispensável na correção de rumos e na reconstrução da ética política que o país tanto reclama. Não é o momento de santificar, tampouco momento de demonizar. É preciso recuperar a respeitabilidade da liderança. Sem liderança política respeitada, não é possível chegar a lugar algum. Sem liderança política respeitada, nenhuma decisão tem credibilidade interna, muito menos credibilidade externa.

Por isso não se podem admitir atitudes de pessimismo ou de absenteísmo desinteressado frente às eleições de outubro.

Não são poucos os desafios que os brasileiros terão pela frente no plano econômico e social.

Em primeiro lugar é preciso recuperar o terreno perdido no campo social: 23 milhões de brasileiros vivem hoje abaixo da linha de pobreza; voltamos no tempo, cresceu a pobreza e aumentou a desigualdade; 13 milhões de brasileiros estão desempregados e um número ainda maior não tem acesso a condições dignas de vida.

O sistema de atendimento à saúde entrou em colapso e a educação pública chegou aos índices mais baixos de eficiência. O país tem 12 milhões de analfabetos e 25 milhões de analfabetos funcionais.

Temos também um amplo passivo a corrigir no campo do combate ao crime organizado e na promoção da segurança cidadã.

No plano econômico o diagnóstico é claro e aparentemente compartilhado por todas as correntes políticas do país: é urgente superar o baixo nível de crescimento da economia; recuperar o equilíbrio fiscal nas contas do Governo, estabilizar os níveis de endividamento público e restabelecer níveis mais elevados de investimento. Há reformas que precisam ser viabilizadas na área tributária e na previdência social. Será preciso rever onerosos privilégios fiscais que permeiam setores inteiros da economia. É preciso recuperar a oferta de crédito ao consumo das famílias e revisitar elementos potencialmente nocivos de decisões anteriormente aprovadas.

Todas essas são tarefas necessárias e prioritárias, embora algumas tenham objetivos aparentemente conflitantes no curto e no médio prazo. Viabilizá-las requer um esforço de engenharia política a partir do espaço que cada partido e cada coligação logre alcançar nos prováveis dois turnos das eleições presidenciais de outubro.

Antes das eleições já se fez o que era possível. As propostas são conhecidas. Cabe agora aguardar a decisão da cidadania sobre a condução do processo.

Caros amigos,

Quero encerrar com uma nota muito sincera de otimismo. Não é pouco o que o país já alcançou até aqui. E isso é motivo de orgulho para todos os brasileiros.

O país demonstrou ao mundo e a si mesmo que somos intolerantes com a injustiça e com a impunidade. Não há país no mundo que seja imune aos desmandos e à corrupção. Mas o Brasil é certamente um dos poucos países do mundo onde esse tipo de conduta transparece, é devidamente investigado e julgado pelos tribunais.

No campo social já fomos capazes de resgatar em poucos anos 40 milhões de brasileiros da pobreza e da marginalidade.

No campo econômico tampouco partimos do zero. Os brasileiros valorizam como poucos a estabilidade econômica e a responsabilidade fiscal porque já sofreram por muito tempo as consequências devastadoras da superinflação e do gasto desenfreado. Recuperamos recentemente índices administráveis de inflação e o setor externo da economia se mantém em posição confortável com amplo superavit comercial, estabilidade nos investimentos externos e um nível elevado de reservas internacionais.

É portanto com sentimento de confiança e de autoestima renovada que encaramos os desafios pela frente, sabedores de nossa grandeza moral como Nação.

Esse é o sentimento que nos une quando cantamos o Hino Nacional e admiramos a nossa Bandeira. É esse o sentimento que nos unirá amanhã aos brasileiros que vivem em Nova York quando apreciarmos as cores de nossa Bandeira projetadas no Empire State Building, o principal monumento arquitetônico desta grande cidade.

Que tenhamos uma feliz e bem aventurada Data Nacional!